Algo Mais - A Revista de Pernambuco

Noticia postada em 29.07.2010 às 08h19

Por que tornar-se escritor

O escritor Raimundo Carrero conversou com o jornalista Marcelo Pereira, editor de cultura do Jornal do Commercio. O resultado do encontro lemos no livro Raimundo Carrero – A fragmentação do Humano. Haveria algo a dizer sobre a proposta inscrita no título, sobretudo porque, em minha leitura dos romances e contos de Carrero, preferiria assinalar que cada obra o aproxima e o constitui como ser falante entre seres falantes. Tanto assim que uma obra persiste na outra. Não apenas como estilo, laço, amarração, sempre obra aberta por uma narrativa inconclusiva. A ideia de fragmentado poderia insinuar dilaceração de corpos, sentimentos e projetos de vida. Ou impertinente relutância do simbólico. Ou circunscrição da dor como expressão e registro do comum à vida. Também valeria comentar a recorrente opinião de Carrero no lugar de homem ligado a Deus e à religião católica, coisa que, em sua obra, se aparece, aparece deslocada como angústia que não cala.
Deixo estas questões para quem melhor atrever-se no encantador e angustiado universo do mais completo e intenso escritor brasileiro da atualidade.  A fragmentação seria mais bem vista se viesse como constituição do ser que tem algo a falar e fala através de personagens em constante processo de pensar os limites do pensamento sobre a vida. Nada a ver com o humano. O rastro de religiosidade se perde na incapacidade das personagens escaparem da realidade, sem conseguirem uma fuga através da fantasia. Não há sublime, nem saltos místicos. Não há revelação, nem exaltação de mistérios. Deixo para os demais tudo isso, pois não aceitaria qualquer menos que a dispersão e as pistas falsas do autor.
Quero concentrar-me apenas em uma reverência: o Raimundo Carrero escritor, para quem a literatura é ficção, criar estórias, a todo instante manter-se inventando tramas que se desdobram e prosseguem em outras estórias. Duas vezes conclui que deveriam ter mais de minha atenção aqueles para quem a literatura fosse missão de vida. Primeiro com o livro de ensaios Contra Vento e Maré, de Mario Vargas-Llosa. Depois o livro-entrevista Cheiro de Goiaba, de Gabriel García Márquez. Não fossem esses dois autores, é pouco provável que conseguisse admirar e reconhecer a importância de Carrero.
Raimundo Carrero é escritor. Autoriza-se escritor. Tem jornada diária de escritor. Monta sua vida como escritor. Comecei ler Carrero pelos comentários de um amigo em comum, Marcus Prado. Foi Prado, anos depois, quem me apresentou Carrero, na antiga sede do Diario de Pernambuco, no centro de Recife. Ficou claro para mim que a vida de jornalista entediava Carrero. Não via a hora de voltar-se a alguma estória se construindo em sua imaginação. Naquele dia, como em nenhum outro antes, senti estar diante de um escritor de verdade, um ser mantido pela persistência de escrever romances, novelas, contos. Alguém com orgulho de ser escritor.
Desde então, sempre foi assim: as estórias se mostram com intensidade e Carrero não consegue domá-las, ocultá-las de quem quer que seja, contando trechos, nomes de personagens, dificuldades de construção. Hoje em dia, ele ensina pessoas de todas as idades escreverem literatura. Dezenas de interessados, nascentes em sua oficina literária permanente, chegam a escrever literatura e publicar livros. Os cursos são extensão de sua obra e espaço essencial para Carrero continuar pensando e vivendo a literatura. Para lá convergem os interessados em aprender a escrever e lá encontram alguém que precisa de literatura para viver.
A maioria dos escritores refere-se à condição de escrever como parte do trabalho árduo e sem fim, da rotina e vida dupla, ao lado de outra atividade profissional. João Cabral de Mello Neto se disse cansado de escrever poesia. Ariano Suassuna anunciou que não tinha mais interesse em escrever e se retiraria. (Eu era adolescente. Até hoje guardo o artigo do domingo no Diario de Pernambuco. Ensaiava minhas primeiras estórias. Aquilo me deixou em silêncio, mas soava como alguém tem de continuar o serviço) Saramago desistira – ou se demorara? - de escrever literatura, voltando mais tarde. A lista de reclamações, desistências e impossibilidades chega a todos.
Vargas-Llosa e García Márquez me ensinaram admirar escritores profissionais, dedicados a viver da criação de ficção. Benvindos se se manifestarem em ensaios, reportagens, artigos factuais e atuais, mas animadoramente estimulantes, e especiais, se nos trouxerem estórias, atos de invenção e persistência sobre a constância de seu delírio, enquadrado por entes que nascem, vivem e escapam pelas palavras e ganham autonomia. Por mais que o escritor tente explicá-los, não consegue. De admirador da obra literária em constante movimento e construção, passei a respeitar o escritor Raimundo Carrero aberto em sua invenção a todos que aceitem escutá-lo. Disse escutar e não ler, porque suas estórias são assim: dá vontade de ler em voz alta. Uma obra sem fim em um escritor que não consegue parar de contar estórias.
Carrero, em um encontro chamado Como nasce uma obra, contou que seu desejo de ser escritor começou na solidão de esperar compradores na loja de seu pai. Um irmão mais velho seguira para uma cidade maior, talvez mais próspera, e deixara um caixote com livros, estrangeiros e brasileiros em tradução para o português. Naquele ambiente em que descobre os objetos dentro do caixote, decide tornar-se escritor. Carrero conta a influência do silêncio do pai, os pensamentos em voz alta da mãe, a ausência-e-presença do irmão retirado ou afastado da família.
Mesmo que não tenha lido qualquer daqueles livros, estarem ali fez diferença. Ibsen e Shakespeare, citados, são enfadonhos quando desprovidos das associações e comentários de terceiros que nos movem a eles – jamais me interessaria por ambos se não tivesse interesse em saber mais sobre complexo de Édipo ou, antes, lido A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung), de Freud. As obras nascem assim, de imagens e mensagens. Do pai, da mãe, da ausência do irmão e do enigma que está contido nas estórias dos livros. Nem todos se tornam escritores para encontrar sentido e dar constituição a uma vida que fica melhor se for sempre inventada. Só poucos serão missionários e profissionais de uma atividade, inventar estórias, indispensável à sobrevivência psíquica e à proximidade das pessoas.

 André Resende é escritor, ensaísta. Livros publicados: Mundo Enquadrado (ensaios), Amor Viário (romance), Quem disse sim (poesia), Maçã Caramelada (teatro), Quem sou eu (infantil), Uma coisa de cada vez (contos), Birdboy (romance). Atua como psicanalista e é membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil, IPB.E-mail: andreresende@meios.com.br

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