Uma importante reflexão sobre o futuro do jornalismo, sobretudo o impresso, foi provocada no Seminário Nacional 200 Anos da Imprensa no Brasil, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco na semana passada. A velocidade com que a informação ganha as ruas, atualmente, tem despertado a grande mídia para um problema bem recorrente nos últimos anos: a proliferação de jornais populares - um fenômeno editorial que hoje abocanha uma fatia importante do mercado. Dos dez periódicos de maior circulação no País, seis são focados no público de baixa renda.
A boa notícia é que o povo está lendo, ainda que à custa de uma "isca" pouco nobre, o sensacionalismo. A fórmula infalível que dá destaque para a violência e o futebol conquista o leitor das classes C e D. Mas é o preço de capa que fideliza esse tipo de consumidor. A "crise iminente", alardeada pela grande mídia parece não atingir os pequenos periódicos (em qualidade, ressalte-se), do contrário não teríamos esse fenômeno de vendas em ascensão. A tiragem de um grande jornal em Pernambuco limita-se a 50 mil exemplares por dia, ao preço de capa de R$ 1,50. Esse valor não custeia sua produção, como choram os dirigentes em cada nova campanha salarial de jornalistas.
A solução para a crise seria "popularizar" todos os jornais do Brasil, enxugando custos e maximizando resultados? Não duvido que comecem a estimular um novo modelo de repórter, o multimídia, contratado por uma agência de notícias para produzir conteúdo para diversos periódicos do País - recebendo um só salário, claro. Engana-se quem pensa que o jornalista é o vilão da cadeia produtiva midiática. Ao analisar balanços financeiros de qualquer empresa de comunicação, pode-se concluir que a folha salarial não chega a representar 10% do custeio de um jornal, e, no entanto, são eles - os jornalistas - as engrenagens que movem a máquina da notícia.
Doa a quem doer, o futuro do jornalismo é a gratuidade total, sem comprometer sua qualidade. Aliás, vou mais longe: forçando o aumento na qualidade editorial. Hoje, em Pernambuco, fazemos 3 jornais para 150 mil leitores diários (dos quais, apenas 1/3 é de baixa renda). Todos os anúncios são ofertados pelos departamentos comerciais de cada periódico, tomando como base a tiragem diária e, conseqüentemente, a visibilidade do público. Já que 50 mil exemplares não se pagam com o preço da capa, o que dizer de 500 mil exemplares de graça? Tomando como base a projeção de que cada jornal comprado na banca é manipulado por pelo menos três pessoas, qual seria a reação do anunciante ao saber que seu produto agora poderia ser visto por 1,5 milhão de leitores ao invés de 150 mil?
O fenômeno de popularidade dos jornais de "violência e esportes" está atrelado ao preço baixo para o consumidor final. Ou seja, de graça ou com preço simbólico, tanto faz. Quem paga essa conta é o anunciante. Internet com conteúdo noticioso restrito é outra incongruência do mercado atual. Ora, se apenas os assinantes do jornal impresso têm acesso ao digital, como o anunciante vai se interessar em "pagar duas vezes" para atingir o mesmo público-alvo? Do jeito que está sendo conduzido, o e-marketing nunca irá se desenvolver nos grandes portais noticiosos. Liberdade de imprensa é fazer o conteúdo chegar no povão, tanto na versão impressa quanto na digital. Hoje o Brasil possui 150 milhões de celulares em atividade, atingindo maciçamente todas as camadas sociais. Fenômeno semelhante ocorreu com a popularização da TV, nas décadas anteriores. Agora, as lan houses pipocam nas favelas e comunidades, despertando a sociedade para uma curiosa constatação: muita gente com e-mail e orkut, mas sem computador. Uma prova de que o povo quer, sim, informação.
Quando o fenômeno de popularidade deixar de ser privilégio apenas do jornalismo barato, teremos condições de fidelizar os milhares de novos leitores e estimular os bons profissionais a trabalhar por uma imprensa séria e comprometida com as causas sociais, capaz de desempenhar um papel educativo de civilidade.
*Marcus Andrey é jornalista, blogueiro e observador social.
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